Uma só coisa

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Um grau abaixo e eis a estranheza: darmo-nos conta de que o mundo é ‘espesso’, entrever a que ponto uma pedra é estranha, nos é irredutível, com que intensidade a natureza, uma paisagem, nos pode negar. No fundo de toda a beleza jaz qualquer coisa de inumano, e essas colinas, a doçura do céu, esses desenhos de árvores, eis que nesse minuto perdem o sentido ilusório de que os revestíamos, agora mais longínquos do que um paraíso perdido. A hostilidade primitiva do mundo, ao longo de milhões de anos, regressa até nós. Por um segundo deixamos de compreender esse mundo, visto que durante séculos dele só entendemos as figuras e os desenhos que lá púnhamos antecipadamente, e que, de hoje em diante, só nos faltam as forças para utilizar tal artifício. O mundo foge-nos, porque se transforma nele próprio. Esses cenários mascarados pelo hábito tornam-se aquilo que são. Afastam-se de nós. Tal como há dias em que, sob o rosto familiar de uma mulher, encontramos como uma estranha aquela que amamos há meses ou há anos, vamos, talvez assim, desejar mesmo aquilo que, de repente, nos torna tão sós. Mas o tempo ainda não chegou. Uma só coisa: esta espessura e esta estranheza do mundo – é o absurdo.
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Albert Camus, “O Mito de Sísifo”. Lisboa: Livros do Brasil, 2016, p. 23-24.

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The Kingdom of Dreams and Madness

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– See him watering his plants? He has no idea we’re watching him. Look over there. See that house with all the ivy on it? From that rooftop, what if you leapt onto the next rooftop, dashed over to that blue and green wall, jumped up and climbed up the pipe, ran across the roof and jumped to the next? You can, in animation. If you can walk the cable, you could see the other side. When you look from above, so many things reveal themselves to you. Maybe race along the concrete wall. Suddenly, there in your humdrum town is a magical movie. Isn’t it fun to see things that way? Feels like you could go somewhere far beyond. Maybe you can.
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Hayao Miyazaki
In Mami Sunada, “The Kingdom of Dreams and Madness”.

How To Be an Unprofessional Artist

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I see making art as the necessary expression of the human spirit. We all need to live, but when the acquisition of wealth becomes the primary endeavor, you are no longer an artist but a financier.
More than a gallerist or a manager, a dealer or an advisor, a critic or a curator, more than an army of assistants and a clutter of collectors, an artist needs the courage to act alone and a community that makes such acts more bearable. One that allows us to be vulnerable, inappropriate, to go rogue, go wild, act weird, and fail.
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Andrew Berardini, “How To Be an Unprofessional Artist”
In MOMUS: http://momus.ca/how-to-be-an-unprofessional-artist/

Kafka a Milena

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Praga, começo de Abril de 1922.

Há muito tempo, Milena, que não lhe escrevo, e, mesmo hoje, faço-o apenas na sequência de um acaso. Na verdade não teria de pedir desculpa pelo meu silêncio, a Milena sabe como odeio as cartas. Toda a infelicidade da minha vida – não o digo para me queixar, e sim para daí retirar uma lição de interesse geral – vem, se quisermos, das cartas ou da possibilidade de as escrever. Talvez nunca tenha sido enganado pelas pessoas; pelas cartas, sempre. E desta vez não o fui pelas cartas dos outros mas pelas minhas. Trata-se, no meu caso, de uma desgraça pessoal sobre a qual não me quero alongar, mas trata-se também de uma infelicidade geral. A grande facilidade de escrever cartas deve ter introduzido no mundo – de um ponto de vista puramente teórico – uma terrível desordem das almas: é um comércio com fantasmas, não apenas com o fantasma do destinatário, mas também com o próprio; o fantasma cresce por debaixo da mão que escreve, na carta que ela redige, com maior razão numa série de cartas onde uma corrobora a outra e pode chamá-la a testemunhar. Como pôde nascer a ideia de que as cartas dariam aos homens um meio de comunicar? Podemos pensar num ser distante, podemos tocar num ser próximo: o resto ultrapassa a força humana. Escrever cartas é pôr-se a nu perante os fantasmas; eles esperam avidamente por esse momento. Os beijos escritos não chegam ao seu destino, os fantasmas bebem-nos pelo caminho. É graças a esse abundante alimento que eles se multiplicam de forma tão extraordinária. A humanidade sente-o e luta contra o perigo: tentou eliminar tanto quanto podia o elemento espectral entre os homens, tentou conseguir entre eles relações tão naturais, tentou restaurar a paz das almas inventando o caminho de ferro, o automóvel, o aeroplano. Mas isso já não serve de nada (essas invenções surgiram quando a queda já tinha sido desencadeada): o adversário é tão mais calmo, tão mais forte. Depois do correio, inventou o telégrafo, o telefone, a telegrafia sem fios. Os espectros não morrerão à fome, mas nós pereceremos.
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Carta de Franz Kafka a Milena.

É para lá que eu vou

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Para além da orelha existe um som, à extremidade do olhar um aspeto, às pontas dos dedos um objeto – é para lá que eu vou.
À ponta do lápis o traço.
Onde expira um pensamento está uma ideia, ao derradeiro hálito de alegria uma outra alegria, à ponta da espada a magia – é para lá que eu vou.
Na ponta dos pés o salto.
Parece a história de alguém que foi e não voltou – é para lá que eu vou.
Ou não vou? Vou, sim. E volto para ver como estão as coisas. Se continuam mágicas. Realidade? Eu vos espero. É para lá que eu vou.

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Clarice Lispector, “É para lá que eu vou”
In “Todos os Contos”. Lisboa: Relógio D’Água, 2016, p. 417.