Kafka a Milena

«
Praga, começo de Abril de 1922.

Há muito tempo, Milena, que não lhe escrevo, e, mesmo hoje, faço-o apenas na sequência de um acaso. Na verdade não teria de pedir desculpa pelo meu silêncio, a Milena sabe como odeio as cartas. Toda a infelicidade da minha vida – não o digo para me queixar, e sim para daí retirar uma lição de interesse geral – vem, se quisermos, das cartas ou da possibilidade de as escrever. Talvez nunca tenha sido enganado pelas pessoas; pelas cartas, sempre. E desta vez não o fui pelas cartas dos outros mas pelas minhas. Trata-se, no meu caso, de uma desgraça pessoal sobre a qual não me quero alongar, mas trata-se também de uma infelicidade geral. A grande facilidade de escrever cartas deve ter introduzido no mundo – de um ponto de vista puramente teórico – uma terrível desordem das almas: é um comércio com fantasmas, não apenas com o fantasma do destinatário, mas também com o próprio; o fantasma cresce por debaixo da mão que escreve, na carta que ela redige, com maior razão numa série de cartas onde uma corrobora a outra e pode chamá-la a testemunhar. Como pôde nascer a ideia de que as cartas dariam aos homens um meio de comunicar? Podemos pensar num ser distante, podemos tocar num ser próximo: o resto ultrapassa a força humana. Escrever cartas é pôr-se a nu perante os fantasmas; eles esperam avidamente por esse momento. Os beijos escritos não chegam ao seu destino, os fantasmas bebem-nos pelo caminho. É graças a esse abundante alimento que eles se multiplicam de forma tão extraordinária. A humanidade sente-o e luta contra o perigo: tentou eliminar tanto quanto podia o elemento espectral entre os homens, tentou conseguir entre eles relações tão naturais, tentou restaurar a paz das almas inventando o caminho de ferro, o automóvel, o aeroplano. Mas isso já não serve de nada (essas invenções surgiram quando a queda já tinha sido desencadeada): o adversário é tão mais calmo, tão mais forte. Depois do correio, inventou o telégrafo, o telefone, a telegrafia sem fios. Os espectros não morrerão à fome, mas nós pereceremos.
»

Carta de Franz Kafka a Milena.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s