Uma só coisa

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Um grau abaixo e eis a estranheza: darmo-nos conta de que o mundo é ‘espesso’, entrever a que ponto uma pedra é estranha, nos é irredutível, com que intensidade a natureza, uma paisagem, nos pode negar. No fundo de toda a beleza jaz qualquer coisa de inumano, e essas colinas, a doçura do céu, esses desenhos de árvores, eis que nesse minuto perdem o sentido ilusório de que os revestíamos, agora mais longínquos do que um paraíso perdido. A hostilidade primitiva do mundo, ao longo de milhões de anos, regressa até nós. Por um segundo deixamos de compreender esse mundo, visto que durante séculos dele só entendemos as figuras e os desenhos que lá púnhamos antecipadamente, e que, de hoje em diante, só nos faltam as forças para utilizar tal artifício. O mundo foge-nos, porque se transforma nele próprio. Esses cenários mascarados pelo hábito tornam-se aquilo que são. Afastam-se de nós. Tal como há dias em que, sob o rosto familiar de uma mulher, encontramos como uma estranha aquela que amamos há meses ou há anos, vamos, talvez assim, desejar mesmo aquilo que, de repente, nos torna tão sós. Mas o tempo ainda não chegou. Uma só coisa: esta espessura e esta estranheza do mundo – é o absurdo.
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Albert Camus, “O Mito de Sísifo”. Lisboa: Livros do Brasil, 2016, p. 23-24.

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