Entre aqueles quadros

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Quantas vezes de dentro de um carro avistamos uma longa rua clara que começa a alguns metros de nós, quando apenas temos à nossa frente a superfície de um muro violentamente iluminada que nos deu a miragem da profundidade! Por conseguinte, não será lógico, não por artifício do simbolismo, mas por retorno sincero à própria raiz da impressão, representar uma coisa através daquela outra que no relâmpago de uma ilusão inicial tomámos por ela? As superfícies e os volumes são na realidade independentes dos nomes de objectos que a nossa memória lhes impõe quando os reconhecemos. Elstir tentava arrancar ao que acabava de sentir aquilo que sabia; o seu esforço consistira muitas vezes em dissolver aquele agregado de raciocínios a que chamamos visão.
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Marcel Proust, “O Lado de Guermantes, Em Busca do Tempo Perdido Vol. 3”. Lisboa: Relógio D’Água, 2016, p. 368.

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