Disse-lhe a senhora de Guermantes

«
‘Escute, vou ser obrigada a despedir-me de si’, disse-lhe enquanto se levantava com um ar melancólico e como se para ela aquilo constituísse uma infelicidade. Sob o feitiço dos seus olhos azuis, a sua voz docemente musical fazia pensar na lamentação poética de uma fada. ‘O Basin quer que eu vá um pouco para junto de Marie.’ Na realidade, estava farta de ouvir Froberville, que já não parava de a invejar por ir a Montfort-l’ Amaury, sabendo ela muito bem que era a primeira vez que ele ouvia falar desses vitrais e que, por outro lado, por nada deste mundo trocaria a matinée de Saint-Euverte. ‘Adeus, mal falei consigo, em sociedade é assim mesmo, a gente não se vê, não dizemos as coisas que gostaríamos de dizer uns aos outros, de resto passa-se a mesma coisa em tudo na vida. Esperemos que depois da morte as coisas estejam mais bem organizadas. Pelo menos não teremos sempre necessidade de enfiar vestidos decotados.
»

Marcel Proust, “Sodoma e Gomorra, Em Busca do Tempo Perdido, Vol. 4”. Lisboa: Relógio D’Água, 2016, p. 85.

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