Guess I’m doing fine

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There’s a blue bird at my window
I can’t hear the songs he sings
All the jewels in heaven
They don’t look the same to me
I just wade the tides that turned
Till I learn to leave the past behind
It’s only lies that I’m living
It’s only tears that I’m crying
It’s only you that I’m losing
Guess I’m doing fine
All the battlements are empty
And the moon is laying low
Yellow roses in the graveyard
Got no time to watch them grow
Now I bade a friend farewell
I can do whatever pleases me
(…)
Press my face up to the window
To see how warm it is inside
See the things that I’ve been missing
Missing all this time
(…)
Guess I’m doing fine
»

Beck. In “Guess I’m doing fine”, “Sea Change”, 2002.

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Tínhamos ido para o fiorde

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Mais tarde, quando saíram do campo de visão, o avô disse que ver golfinhos dava sorte. Ele dizia coisas assim, acreditava em profecias e superstições, mas apesar de gostar de o ouvir, não pensava por um momento sequer que na realidade pudessem ser verdade. Agora penso. Porque fazemos nós alguma ideia de como a felicidade e a infelicidade são distribuídas? Elas surgem no interior do humano, tal como bem pensa a maioria das pessoas no nosso tempo racional, e somos nós mesmos que criamos a nossa felicidade ou infelicidade, a questão é o que se entende por ‘nós mesmos’ num tempo assim – se não é apenas uma concentração de células que concretizaram um código genético e que é modificado por experiências, que são ativadas ou desativadas por pequenas tempestades electroquímicas, de maneira que algo determinado seja sentido, pensado, dito, feito? E que as consequências exteriores disto criam uma nova tempestade interior, e uma subsequente série de sentimentos, pensamentos, verbalizações, gestos? Uma redução destas é absurda e mecanicista, mas não mais absurda e mecanicista do que a redução dos golfinhos a um animal marinho com determinadas características e comportamentos, porque todos os que entraram em contacto com eles, no momento em que não só surgem das profundidades, mas também do tempo, imutáveis como são há milhões de anos, sabem que vê-los é ser atingido por algo, é como se eles te tocassem, e que com isso tu és escolhido.
»

Karl Ove Knausgård, “No Outono”, Lisboa: Relógio D’Água, 2016, p. 36.

Nobody sees as we do

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Yet you could feel a vibration in the air, a sense of hastening. It had started with the moon, inaccessible poem that it was. Now men had walked upon it, rubber treads on a pearl of the gods. Perhaps it was an awareness of time passing, the last summer of the decade. Sometimes I just wanted to raise my hands and stop. But stop what? Maybe just growing up.
»

Patti Smith, “Just Kids”. London: Bloomsbury, 2012, p. 104.

A partir do meu quarto

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Logo de manhã, ainda virado para a parede e antes de ver por cima dos grandes cortinados da janela que tonalidade tinha a risca de luz do dia, já eu sabia como estava o tempo. Os primeiros ruídos da rua tinham-mo feito saber, consoante me chegavam amortecidos e desviados pela humidade ou vibrantes como setas na superfície retumbante e vazia de uma manhã espaçosa, glacial e pura; ao primeiro ressoar do primeiro tramway, já eu percebera se o dia estava enregelado na chuva ou de partida para o azul. E talvez até a esses ruídos se tivesse antecipado alguma emanação mais rápida e mais penetrante, que, insinuando-se no meu sono, nele difundisse uma tristeza anunciadora da neve ou fizesse entoar por um pequeno personagem intermitente tão numerosos cânticos à glória do Sol que estes acabavam por trazer até mim – até mim que, adormecido ainda, começava a sorrir, e cujas pálpebras fechadas se preparavam para se deslumbrar – um assombroso despertar em música.
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Marcel Proust, “A Prisioneira, Em Busca do Tempo Perdido, Vol. 5”. Lisboa: Relógio D’Água, 2016, p. 7.

Carta a uma filha que vai nascer

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O que é que faz a vida ser digna de ser vivida?
Nenhuma criança faz esta pergunta. Para as crianças a vida é uma evidência. A vida fala por si própria: se é boa ou má, não tem nenhuma importância. É assim porque elas não veem o mundo, não avaliam o mundo, não reflectem sobre o mundo, mas estão tão profundamente no mundo, que não fazem a separação entre ele e elas próprias. É só quando isso acontece, quando surge uma distância entre aquilo que elas são e o que o mundo é, que a questão se põe: o que é que faz a vida ser digna de ser vivida?
É a sensação de pressionar o puxador para baixo e abrir a porta, sentir se abre para dentro ou para fora nas dobradiças, sempre leve e fácil, e entrar noutro quarto?
Sim, a porta abre como uma asa, e apenas isso já faz a vida ser digna de ser vivida.
Se uma pessoa já viveu muitos anos, a porta é uma evidência. A casa é uma evidência, o jardim é uma evidência, o céu e o mar são evidências, a própria lua, que se suspende sobre os telhados e os ilumina de noite, é uma evidência.
O mundo fala por si próprio, mas não o escutamos, e como já não estamos profundamente nele e o sentimos como uma parte de nós mesmos, é como se ele desaparecesse. Abrimos a porta, mas nada significa, não é nada, é apenas uma coisa que fazemos para passar de um quarto para outro.
Quero mostrar-te o nosso mundo, tal como ele é agora: a porta, o chão, a torneira e a pia,  a cadeira de jardim junto à parede, debaixo da janela da cozinha, o sol, a água, as árvores. Tu irás vê-lo da tua própria maneira, virás a ter as tuas próprias experiências, e a viver a tua própria vida, portanto é evidente que acima de tudo é por minha causa que o faço: mostrar-te o mundo, faz a minha vida ser digna de ser vivida.
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Karl Ove Knausgård, “No Outono”, Lisboa: Relógio D’Água, 2017, p. 18-19.