A partir do meu quarto

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Logo de manhã, ainda virado para a parede e antes de ver por cima dos grandes cortinados da janela que tonalidade tinha a risca de luz do dia, já eu sabia como estava o tempo. Os primeiros ruídos da rua tinham-mo feito saber, consoante me chegavam amortecidos e desviados pela humidade ou vibrantes como setas na superfície retumbante e vazia de uma manhã espaçosa, glacial e pura; ao primeiro ressoar do primeiro tramway, já eu percebera se o dia estava enregelado na chuva ou de partida para o azul. E talvez até a esses ruídos se tivesse antecipado alguma emanação mais rápida e mais penetrante, que, insinuando-se no meu sono, nele difundisse uma tristeza anunciadora da neve ou fizesse entoar por um pequeno personagem intermitente tão numerosos cânticos à glória do Sol que estes acabavam por trazer até mim – até mim que, adormecido ainda, começava a sorrir, e cujas pálpebras fechadas se preparavam para se deslumbrar – um assombroso despertar em música.
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Marcel Proust, “A Prisioneira, Em Busca do Tempo Perdido, Vol. 5”. Lisboa: Relógio D’Água, 2016, p. 7.

Carta a uma filha que vai nascer

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O que é que faz a vida ser digna de ser vivida?
Nenhuma criança faz esta pergunta. Para as crianças a vida é uma evidência. A vida fala por si própria: se é boa ou má, não tem nenhuma importância. É assim porque elas não veem o mundo, não avaliam o mundo, não reflectem sobre o mundo, mas estão tão profundamente no mundo, que não fazem a separação entre ele e elas próprias. É só quando isso acontece, quando surge uma distância entre aquilo que elas são e o que o mundo é, que a questão se põe: o que é que faz a vida ser digna de ser vivida?
É a sensação de pressionar o puxador para baixo e abrir a porta, sentir se abre para dentro ou para fora nas dobradiças, sempre leve e fácil, e entrar noutro quarto?
Sim, a porta abre como uma asa, e apenas isso já faz a vida ser digna de ser vivida.
Se uma pessoa já viveu muitos anos, a porta é uma evidência. A casa é uma evidência, o jardim é uma evidência, o céu e o mar são evidências, a própria lua, que se suspende sobre os telhados e os ilumina de noite, é uma evidência.
O mundo fala por si próprio, mas não o escutamos, e como já não estamos profundamente nele e o sentimos como uma parte de nós mesmos, é como se ele desaparecesse. Abrimos a porta, mas nada significa, não é nada, é apenas uma coisa que fazemos para passar de um quarto para outro.
Quero mostrar-te o nosso mundo, tal como ele é agora: a porta, o chão, a torneira e a pia,  a cadeira de jardim junto à parede, debaixo da janela da cozinha, o sol, a água, as árvores. Tu irás vê-lo da tua própria maneira, virás a ter as tuas próprias experiências, e a viver a tua própria vida, portanto é evidente que acima de tudo é por minha causa que o faço: mostrar-te o mundo, faz a minha vida ser digna de ser vivida.
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Karl Ove Knausgård, “No Outono”, Lisboa: Relógio D’Água, 2017, p. 18-19.