Chegada

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Houve uns poucos de anos em que a minha vida foi invulgar.
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Paulo Varela Gomes, “Era uma vez em Goa”. Lisboa: Tinta da China, 2015, p. 13.

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And thus such pictures

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What is aura, actually? A strange weave of space and time: the unique appearance or semblance of distance, no matter how close it may be. While at rest on a summer’s noon, to trace a range of mountains on the horizon, or a branch that throws its shadow on the observer, until the moment or the hour become part of their appearance – this is what it means to breathe the aura of those mountains, that branch.
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Walter Benjamin, “Little History of Photography”. In Jennings, M. W., Eiland H., Smith, G. (Eds.) “Walter Benjamin, Selected Writings, Volume 2, Part 2, 1931-1934”. Cambridge, MA: The Belknap Press of Harvard University Press, 2005, pp. 518-519.

“One can recognize…”

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I am still bewildered and enchanted by landscape. It is exclusively experiential. There is no other way to know it. A landscape is something that is too complex in itself to express in any other form. It is experiential or it is nothing. (…) I am fascinated by things that are not what they appear to be. As well, I am interested in things that don’t reduce. Things that, by nature, are complex.
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Roni Horn. In e-flux newsletter: October 12, 2017.

Wim Wenders on his Polaroids

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It’s not just the meaning of the image that has changed – the act of looking does not have the same meaning. Now, it’s about showing, sending and maybe remembering. It is no longer essentially about the image. The image for me was always linked to the idea of uniqueness, to a frame and to composition. You produced something that was, in itself, a singular moment. As such, it had a certain sacredness. That whole notion is gone. (…) At the time, it was part of everyday life, another thing you used for living – like food and air and the stinky cars we were driving and the cigarettes everyone was smoking. Today, making a Polaroid is just a process. (…) The culture has changed. It has all gone. I really don’t know why we stick to the word photography any more. There should be a different term, but nobody cared about finding it.
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Wim Wenders, in conversation with Sean O’Hagan. In The Guardian: https://www.theguardian.com/artanddesign/2017/oct/12/wim-wenders-interview-polaroids-instant-stories-photographers-gallery

A nossa península já foi sábia

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Ouçamos o mais velho de todos os sábios peninsulares. Também nasceu em Córdova, há pouco mais de dois mil anos: Séneca. Explicou no seu A Constância da Sabedoria (bom título, bom título) que o sábio é aquele que, na verdade, só é vencido pela sua facilidade em sentir-se insultado e a sua vontade de humilhar. Ceder a essas fraquezas é a verdadeira derrota. Resistir ao orgulho, condição para a convivência, a verdadeira vitória. A última frase de Séneca, assim contextualizando o que ele entende como verdadeira vitória (sobre nós mesmos e não sobre os outros) diz assim: “não se dar por vencido é ser mais forte que o destino e, assim, fazer parte da república do género humano”. Ainda vale a pena meditar bem no que queria dizer com isto o mais velho sábio da nossa península, e agir em conformidade.
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Rui Tavares. In Público: https://acervo.publico.pt/2017/10/10/mundo/noticia/a-nossa-peninsula-ja-foi-sabia-1788398

The data religion

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With so many scenarios and possibilities, what should we pay attention to? The world is changing faster than ever before, and we are flooded by impossible amounts of data, of ideas, of promises and of threats. Humans are relinquishing authority to the free market, to crowd wisdom and to external algorithms partly because we cannot deal with the deluge of data. In the past, censorship worked by blocking the flow of information. In the twenty-first century censorship works by flooding people with irrelevant information. We just don’t know what to pay attention to, and often spend our time investigating and debating side issues. In ancient times having power meant having access to data. Today having power means knowing what to ignore. So considering everything that is happening in our chaotic world, what should we focus on?
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Yuval Noah Harari, “Homo Deus, A Brief History of Tomorrow”. London: Vintage, 2017, p. 461-462.

A prova dessa beleza

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O campo infinito dos possíveis alarga-se, e se por acaso o real se apresentasse à nossa frente, seria de tal modo fora dos possíveis que, numa repentina vertigem, esbarrando nessa parede inesperada, cairíamos de costas. O movimento e a fuga verificados nem sequer são indispensáveis, basta que os induzamos. Ela havia-nos prometido uma carta, estávamos calmos, já não amávamos. A carta não chegou, nenhum correio a traz, que se passa?, renasce a ansiedade e o amor. São sobretudo pessoas como estas que nos inspiram amor, para nossa desolação. Porque cada nova ansiedade que experimentamos por causa delas retira-lhes aos nossos olhos algo da sua personalidade. Estávamos resignados ao sofrimento, julgando amar fora de nós, e percebemos que o amor é função da nossa tristeza, que o nosso amor é talvez a nossa tristeza e que o seu objecto só em pequena parte é a rapariga de cabelo negro. Mas afinal são sobretudo tais pessoas que inspiram amor. A maioria das vezes o amor só tem por objecto um corpo se uma emoção, o medo de o perder, a incerteza de o recuperar nele estiverem fundidos. Ora este género de ansiedade tem uma grande afinidade com os corpos. Acrescenta-lhes uma qualidade que ultrapassa a própria beleza, o que é uma das razões pelas quais vemos homens indiferentes às mulheres mais belas amarem apaixonadamente umas que nos parecem feias. A essas criaturas, a essas criaturas em fuga, a sua natureza e a nossa inquietação dão-lhes asas. E, mesmo junto de nós, o olhar delas parece dizer-nos que vão levantar voo. A prova dessa beleza que ultrapassa a beleza que as asas acrescentam está em que muitíssimas vezes, para nós, uma mesma pessoa é sucessivamente desprovida de asas e alada. Basta que receemos perdê-la para esquecermos todas as outras. Seguros de a conservar, comparamo-la a essas outras que imediatamente lhe preferimos. E como estas emoções e estas certezas podem alternar de uma semana para outra, numa semana pode ser sacrificado a uma pessoa tudo o que agradava e ser ela sacrificada na semana seguinte, e assim por diante durante muito tempo. O que seria incompreensível se não soubéssemos, pela experiência que todo o homem tem de ter deixado de amar, ao menos uma vez na vida, de ter esquecido uma mulher, quão pouco é em si mesma uma criatura quando já não é, ou não é ainda, permeável às nossas emoções.
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Marcel Proust, “A Prisioneira, Em Busca do Tempo Perdido, Vol. 5”. Lisboa: Relógio D’Água, 2016, p. 77-78.

Era noite

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– Vou te contar um segredo – ela começou.
– Ainda conta – perdi o pirilampo de vista.
– Dizem que quando um silêncio chega e fica entre duas pessoas…
– Sim?
– É porque passou um anjo e lhes roubou a voz.
– Tu acreditas em anjos?
– Tu não acreditas em silêncios?
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Ondjaki, “Uma Escuridão Bonita”. Alfragide: Editorial Caminho, 2013, p. 38.

The humanist revolution

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What exactly are ‘experiences’? They are not empirical data. An experience is not made of atoms, electromagnetic waves, proteins or numbers. Rather, an experience is a subjective phenomenon made up of three main ingredients: sensations, emotions and thoughts. At any particular moment my experience comprises everything I sense (heat, pleasure, tension, etc.), every emotion I feel (love, fear, anger, etc.) and whatever thoughts arise in my mind.
And what is ‘sensitivity’? It means two things. Firstly, paying attention to my sensations, emotions and thoughts. Second, allowing these sensations, emotions and thoughts to influence me. Granted, I shouldn’t allow every passing breeze to sweep me away. Yet I should be open to new experiences and permit them to change my views, my behaviour and even my personality.
Experiences and sensitivity build up one another in a never-ending cycle. I cannot experience anything if I have no sensitivity, and I cannot develop sensitivity unless I undergo a variety of experiences. Sensitivity is not an abstract aptitude that can be developed by reading books or listening to lectures. It is a practical skill that can ripen and mature only by applying it in practice.
(…)
You cannot experience something if you don’t have the necessary sensitivity, and you cannot develop your sensitivity except by undergoing a long string of experiences.
(…)
We aren’t born with a ready-made conscience. As we pass through life we hurt people and people hurt us, we act compassionately and others show compassion for us. If we pay attention, our moral sensitivity sharpens, and these experiences become a source of valuable ethical knowledge about what is good, what is right and who I really am.
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Yuval Noah Harari, “Homo Deus, A Brief History of Tomorrow”. London: Vintage, 2017, p. 278-279.

Legitimar a ideia de igualdade

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Não é apenas a globalização que produz as desigualdades. São também as economias em que se pode dizer que ‘the winner takes all’. Aquele que tem mais capacidade para marcar golos num jogo de futebol, vai ganhar mais 10 ou 100 vezes que os outros. E uma cultura – direi mesmo uma ideologia – em que pensamos que o sucesso de um colectivo repousa grosso modo do sucesso de um pequeno número de indivíduos. Volto a insistir. Há uma verdadeira dimensão ideológica que se traduz no consentimento da desigualdade. Da mesma maneira, podemos também dizer que é a chegada de uma nova economia da inovação. E a inovação quer dizer precisamente, que um pequeno número de pessoas consegue acumular uma riqueza enorme. Estou a falar da Microsoft, do Google, do Facebook, etc. Não é só a globalização, são as condições da economia, que também levaram a um consentimento forte da desigualdade. Porque elas são vistas como legítimas. E é esse o grande problema: para lutar contra as desigualdades, temos de lutar contra o consentimento das desigualdades.
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Pierre Rosanvallon, interviewed by Teresa de Sousa. In Público: https://www.publico.pt/2017/09/26/mundo/entrevista/e-preciso-voltar-a-legitimar-a-ideia-de-igualdade-1786621?page=/pierre-rosanvallon&pos=1&b=list_section