Desassossego

«
Mover-se é viver, dizer-se é sobreviver. Não há nada de real na vida que o não seja porque se descreveu bem. Os críticos da casa pequena soem apontar que tal poema, longamente ritmado, não quer, afinal, dizer senão que o dia está bom. Mas dizer que o dia está bom é difícil, e o dia bom, ele mesmo, passa. Temos pois que conservar o dia bom em uma memória florida e prolixa, e assim constelar de novas flores ou de novos astros os campos ou os céus da exterioridade vazia e passageira.
»

Bernardo Soares.

About being human

«
Man is not free from conditions. But he is free to take a stand in regard to them. The conditions do not completely condition him. Within limits it is up to him whether or not he succumbs and surrenders to the conditions. He may as well rise above them and by so doing open up and enter the human dimension… Ultimately, man is not subject to the conditions that confront him; rather, these conditions are subject to his decision. Wittingly or unwittingly, he decides whether he will face up or give in, whether or not he will let himself be determined by the conditions.
»

Viktor Frankl, “Psychotherapy and Existentialism”. Excerpt found online.

From the dry salvages

«
For most of us, there is only the unattended
Moment, the moment in and out of time,
The distraction fit, lost in a shaft of sunlight,
The wild thyme unseen, or the winter lightning,
Or the waterfall, or music heard so deeply,
That is not heard at all, but you are the music,
While the music lasts.
»

T. S. Eliot, excerpt from “The Dry Salvages”. In Alexandra Prado Coelho, “Bolos entre ruínas”. Granta, nº9, Lisboa: Tinta da China, 2017, p. 21.

Só naquele momento acabava de saber

«
É sem dúvida a existência do nosso corpo, semelhante para nós a um vaso onde estivesse encerrada a nossa espiritualidade, que nos induz a supor que todos os nossos bens interiores, as nossas alegrias passadas, todas as nossas dores estão permanentemente na nossa posse. Talvez seja também inexacto acreditar que elas se escapam ou que regressam. Em todo o caso, se permanecem em nós, ficam a maioria das vezes confinadas a um domínio desconhecido onde não nos servem para nada e onde, até, as mais usuais são recalcadas por recordações de ordem diferente e que excluem toda a simultaneidade com elas na consciência. Mas, se o quadro de sensações onde se conservaram for retomado, têm por sua vez aquele mesmo poder de expulsar tudo o que com elas for incompatível, de instalar em nós, sozinho, o eu que as viveu.
»

Marcel Proust, “Sodoma e Gomorra, Em Busca do Tempo Perdido, Vol. 4”. Lisboa: Relógio D’Água, 2016, p. 146.

We need theory

«
The first myth to dispel about ‘theory’ is the idea that we can do without it. There is no untheoretical way to see photography. While some people may think of theory as the work of reading difficult essays by European intellectuals, all practices presuppose a theory. Even someone who claims to be ‘against theory’ is, ironically, actually articulating a theoretical position on theory (albeit one that is far from new or very useful). Certainly theory can be difficult, but so is ice-skating to the novice. Like most things, theory becomes easier with practice; just like new words and concepts that inevitably belong to that discipline become easier with practice too.
»

Davit Bate, “Photography: The Key Concepts”. Oxford: Berg, 2009, p. 25.

On resonance

«
It is what fosters empathy or compassion. Without resonance there can be no understanding, no appreciation. But resonance requires you to apply feeling as well as thought. Indeed, feeling is more essential, for without feeling we will remain entangled in illusions.
»

Unni Wikan, quoting a ‘professor-poet’ in a Balinese village.
In Robert Kozinets, “Netnograpy: Redefined”. 2nd Edition. London: Sage, 2015, p. 268.

The first move: imagining

«
In imagining, you build on your initial reflective ideas captured in your fieldnotes and add many elements of your own awareness as a social being, as a human coming from a particular social situation, identity and place. Imagining is a stream of consciousness association. It is a right-brained wandering, the talking method, the chattering monkey voice that human mind is, beginning to dream, sometimes deeply in a hypnotic state, the murmur jabbering in our ear, as the Buddhist monks say, mindless many times like a tape recorder repeating things over, looping sounds and ideas, linking thoughts to them. Just let it run free and keep recording it. This is imagining.
»

Robert Kozinets, “Netnograpy: Redefined”. 2nd Edition. London: Sage, 2015, p. 201.

Disse-lhe a senhora de Guermantes

«
‘Escute, vou ser obrigada a despedir-me de si’, disse-lhe enquanto se levantava com um ar melancólico e como se para ela aquilo constituísse uma infelicidade. Sob o feitiço dos seus olhos azuis, a sua voz docemente musical fazia pensar na lamentação poética de uma fada. ‘O Basin quer que eu vá um pouco para junto de Marie.’ Na realidade, estava farta de ouvir Froberville, que já não parava de a invejar por ir a Montfort-l’ Amaury, sabendo ela muito bem que era a primeira vez que ele ouvia falar desses vitrais e que, por outro lado, por nada deste mundo trocaria a matinée de Saint-Euverte. ‘Adeus, mal falei consigo, em sociedade é assim mesmo, a gente não se vê, não dizemos as coisas que gostaríamos de dizer uns aos outros, de resto passa-se a mesma coisa em tudo na vida. Esperemos que depois da morte as coisas estejam mais bem organizadas. Pelo menos não teremos sempre necessidade de enfiar vestidos decotados.
»

Marcel Proust, “Sodoma e Gomorra, Em Busca do Tempo Perdido, Vol. 4”. Lisboa: Relógio D’Água, 2016, p. 85.

Entre aqueles quadros

«
Quantas vezes de dentro de um carro avistamos uma longa rua clara que começa a alguns metros de nós, quando apenas temos à nossa frente a superfície de um muro violentamente iluminada que nos deu a miragem da profundidade! Por conseguinte, não será lógico, não por artifício do simbolismo, mas por retorno sincero à própria raiz da impressão, representar uma coisa através daquela outra que no relâmpago de uma ilusão inicial tomámos por ela? As superfícies e os volumes são na realidade independentes dos nomes de objectos que a nossa memória lhes impõe quando os reconhecemos. Elstir tentava arrancar ao que acabava de sentir aquilo que sabia; o seu esforço consistira muitas vezes em dissolver aquele agregado de raciocínios a que chamamos visão.
»

Marcel Proust, “O Lado de Guermantes, Em Busca do Tempo Perdido Vol. 3”. Lisboa: Relógio D’Água, 2016, p. 368.