What the scenario means to me

«
I do not know how to write the best scenario. If I knew, I would be able to write one. Scenario-writing ability comes from talent and effort and is not something that can be taught. It is not a technique but emerges from what one wants to express.
One must have the clear core of what one wants to convey. This is the trunk of the story that penetrates throughout in a strong and simple way. What catches the audience’s eye is the treetop, the shimmer of the leaves. What is most required of a scenario are roots that spread deep into the earth and a strong trunk hidden by the mass of shivering leaves. As long as there is a trunk strong enough to support branches and leaves, the rest – hanging decorations, letting flowers bloom, and adding accessories – can be accomplished by everyone sharing their ideas.
The best scenario might be one that includes the mass of leaves and even the insects that crawl among those leaves.
»

Hayao Miyazaki, “What the scenario means to me”. In “Starting Point: 1979-1996”. San Francisco: VIZ Media, 2009, p. 69.

Advertisements

The origin of everything

«
When people speak of a beautiful sunset, do they hurriedly riffle through a book of photographs of sunsets or go in search of a sunset? No, you speak about the sunset by drawing on the many sunsets stored inside you – feelings deeply etched in the folds of your consciousness of the sunset you saw while carried on your mother’s back so long ago that the memory is nearly a dream; or the sunset-washed landscape you saw when, for the first time in your life, you were enchanted by the scene around you; or the sunsets you witnessed that were wrapped in the loneliness, anguish, or warmth.
»

Hayao Miyazaki, “From idea to film”. In “Starting Point: 1979-1996”. San Francisco: VIZ Media, 2009, p. 28.

Essa ideia que havia muito não me ocorria

«
Foi, recordo-me, numa paragem de comboio em pleno campo. O Sol iluminava até meia altura dos respectivos troncos uma fieira de árvores que acompanhava a linha do caminho-de-ferro. “Árvores”, pensei eu, “já nada tendes para me dizer, e o meu coração arrefecido já não vos ouve. E, apesar de estar aqui em plena natureza, ora vejam, é com frieza, com tédio, que os meus olhos reparam na linha que separa a vossa luminosa fronde do vosso tronco de sombra. Se alguma vez me julguei poeta, sei agora que não o sou. Talvez nesta nova parte da minha vida que se inicia, tão ressequida, os homens possam inspirar-me o qua natureza já não me diz. Mas aqueles anos em que talvez pudesse ter sido capaz de a cantar não mais voltarão.” Porém, ao conceder a mim mesmo esta consolação de que uma possível observação humana poderia tomar o lugar de uma inspiração impossível, bem sabia eu que apenas procurava encontrar uma consolação, que era o primeiro a saber que não tinha valor. Tivesse eu verdadeiramente alma de artista, e que prazer sentiria diante daquela cortina de árvores iluminada pelo sol-poente, diante daquelas florinhas do talude que chegavam quase à altura do estribo da carruagem, cujas pétalas podia contar e cuja cor não ousava descrever como tantos bons literatos fariam, já que não se pode esperar transmitir ao leitor um prazer que não se sentiu. Vira um pouco depois, com a mesma indiferença, as manchas de ouro e laranja com que o sol salpicava as janelas de uma casa; e, por fim, passado um tempo, vira outra casa que parecia feita de uma matéria de uma estranhíssima cor rosada. Mas fizera estas diversas verificações com a mesma absoluta indiferença com que, passeando num jardim com uma senhora, veria um pedaço de vidro e, um pouco mais adiante, um objecto de uma matéria semelhante ao alabastro cuja insólita coloração me não arrancaria ao tédio mais entorpecido, e, por delicadez para com a senhora, para dizer qualquer coisa e também para mostrar que reparara naquela cor, faria uma referência de passagem ao vidro colorido e ao fragmento de estuque. Do mesmo modo, por descargo de consciência, assinalei a mim mesmo, como indicaria a alguém que me acompanhasse e deles pudesse tirar maior prazer que o meu, os reflexos de fogo nas vidraças e a transparência rósea da casa. Mas o companheiro a quem eu chamara a atenção para aqueles efeitos curiosos era sem dúvida por temperamento menos entusiasta que muitas pessoas benevolentes que se encantam com um espectáculo assim, porque tomara conhecimento daquelas cores sem qualquer espécie de júbilo.
»

Marcel Proust, “O Tempo Reencontrado, Em Busca do Tempo Perdido, Vol. 7”. Lisboa: Relógio D’Água, 2016, p. 146-147.

Hyperballad

«
We live on a mountain
Right at the top
There’s a beautiful view
From the top of the mountain
Every morning I walk towards the edge
And throw little things off
Like car-parts, bottles and cutlery
Or whatever I find lying around
It’s become a habit
A way to start the day
I go through all this
Before you wake up
So I can feel happier
To be safe up here with you
»

Björk, “Hyperballad”. In “Post”, 1995.

Being perverse

«
– People often comment on the queasy or perverse nature of your photographs. Where do you think these feelings come from, and is that effect intentional?
– Yes, the struggle is to make the image active and relatable; clear but complex. Like our new reality, it has to be layered and open to paranoid interpretation.

– Where does an image start for you? In your mind, or from observation?
– It can be either. But it’s really about the in-between states. A mental image is vague and un-photographic. It needs physical bodies to be seen and expressed. On the other hand, the observed object already awakens an archetype. I’m not interested if it doesn’t.

– How do your pictures skirt their photographic duty? I’m thinking about some of the qualities your photographs share with commercial photography, how they play with the visual language of advertising.
– Instead of this continuous disappointment over our culture’s meaningless iconography, which typically leads to heartbreak and satire, I take the route of acceptance. Maybe the best way to express authenticity is through a personal and desperate investment in the broken language of popular photography.

– Do you consider your photographs impersonal?
– I don’t know how helpful these dichotomies are. The images shouldn’t need me to make sense, they shouldn’t depend on an author. At the same time, they are deeply personal — I don’t want them to only arise from or cast a critical eye on a culture — and they don’t work if viewers cannot invest their own experiences, dreams, memories or phobias in them.
I’ve inherited a strong sense of surface from postmodern photography, but the movement is inwards, towards an emerging spirituality. This can be easy to miss and I’m not forcing it on anyone.

– How does context factor into the images you make?
– In many ways, the project builds on critical appropriation, a form of art where context is everything. But gradually I’ve become conscious of the independent nature of my pictures. Or maybe they’ve grown more independent. I’m now more confident letting them appear outside of a fine art context than I was twenty years ago. But they are still very sensitive to the context of each other.

– How has living in LA — the capital of image management — affected your work, or process?
– Should I be able to tell how Los Angeles has affected me? I already knew to pretend that everything is alright.
I was never interested in revealing how an image is constructed. That is the old postmodern art. But the awareness of construction is always there. The challenge is to let a picture’s self-awareness make it a more, not less, effective image or vehicle.
The art discourse is naturally elitist, but it doesn’t have to center around itself. My photographs are for people who are stimulated by but ultimately unsatisfied with the photographic images they’re taking in through more predictable channels. Photography is ultimately too important to leave to amateurs and advertisers.
»

Torbjørn Rødland, interview by Christina Catherine Martinez. In CNN: http://edition.cnn.com/style/article/torbjorn-rodland-photography/index.html

É claro que é um grande romance

«
– E falam como?
– Falam com humor, mas também com saudade. A maior parte dos soldados eram pobres. Muitos nunca tinham tido sapatos. Uma vez, estava no Porto a apresentar um livro e apareceram. A maior parte eram do Norte. Eram dez ou 15, e fui falar com eles; não os via há que tempos. O apresentador, que era um homem conhecido, disse: “O António gosta muito das pessoas humildes.” Eu fiquei fodido e agarrei no microfone e disse: “Os meus soldados não são pessoas humildes, são príncipes, ouviu? São príncipes!”
(…)
– O que faz o charme do livro?
– Se a gente soubesse! A minha mãe dizia que o que um homem podia ter de mais sensual era a inteligência, mas depois acrescentava com desgosto: não há nada mais estúpido do que um homem inteligente. Ela tinha razão. Eu faço coisas tão estúpidas. Olhe a minha vida! Escrevo de manhã à noite.
(…)
– Um homem com uma biografia complicada.
– Quem não tem? Mas é um grande escritor. O Proust também foi um amor à primeira vista. A minha mãe era das poucas mulheres que conheci que leram o Proust inteiro. E o meu pai lia-nos muito. Quando um estava doente, adoeciam todos, e ele sentava-se na cama de um de nós e lia. Lia Flaubert, que eu achava uma chumbada. Vou-lhe dar uma imagem do Cocteau: parece-me uma preta que adormeceu no banho cheia de jóias falsas. Era assim que ele retratava Veneza. O Dante tinha 1500 palavras, o Flaubert, que toda a gente achava que tinha léxico riquíssimo, tinha 12 mil, hoje qualquer adolescente português tem 17 mil, e olhe o que escrevem! E há outros escritores, que muita gente considera menores, por exemplo Gautier [Theophile Gautier]. Uma vez levaram-no as ver As Meninas, do Velázquez, e ele ficou a olhar e depois perguntou: “Onde é que está o quadro?” Há alguma maneira mais bonita de descrever aquele quadro? Ou a reacção do Papa Inocêncio XII quando Velázquez lhe pintou o retrato, “tropo vero”. O Inocêncio quis dizer que o Velázquez tinha posto ali Papa a mais. Quando perguntaram a Dali qual o melhor pintor, ele respondeu “Velázquez, siempre Velázquez”. É único. E o único que aproximo dele é Vermeer. A gente põe a fasquia um bocado alta. Como alguns poetas, noutro dia estava a reler alguns poetas americanos do século XX de que gosto muito, o Wallace Stevens… Sei tantos poemas de cor.
»

António Lobo Antunes, entrevista por Isabel Lucas. In Público: https://www.publico.pt/2017/11/10/culturaipsilon/entrevista/e-claro-que-e-um-grande-romance-fui-eu-que-o-escrevi-1791615

 

Quanto à terceira vez em que me lembro

«
É certo que as humildes particularidades que tornavam única a janela do quarto da minha tia Léonie, que dava para a Rua do Pássaro, a sua assimetria causada pela distância desigual entre as duas janelas contíguas, a altura excessiva do seu parapeito de madeira e a alavanca articulada que servia para abrir as portadas, as duas cortinas de cetim azul brilhante que uma laçada dividia e mantinha afastadas, tudo isso existia também naquele hotel de Veneza, onde ouvia aquelas palavras tão especiais e tão eloquentes que nos fazem reconhecer ao longe a casa aonde regressamos para almoçar, e que ficam mais tarde na nossa memória como um testemunho de que durante um certo tempo aquela casa foi a nossa casa; mas em Veneza o encargo de as dizer estava confiado, não como em Combray, e em toda a parte, às coisas mais simples, e até mais feias, mas à ogiva ainda meio árabe de uma fachada que está reproduzida em todos os museus de moldes e em todos os livros de arte ilustrados como uma das obras-primas da arquitectura doméstica da Idade Média; bem ao longe, e, quando mal havia atravessado São Jorge Maior, avistava aquela ogiva que me vira a mim, e o movimento dos seus arcos quebrados juntava ao seu sorriso de boas-vindas a distinção de um olhar mais elevado e quase incompreendido. E porque, atrás dos seus balaústres de mármore de diversas cores, a minha mãe lia enquanto me esperava, com o rosto rodeado por um veuzinho de tule de um branco para mim tão dilacerante como o do seu cabelo, por sentir que a minha mãe, no ocultar das lágrimas, o acrescentara ao chapéu de palha não tanto para mostrar às pessoas do hotel que se tinha “arranjado”, mas para parecer menos enlutada, menos triste, quase consolada; porque, não me tendo reconhecido logo, mal a chamava da gôndola, enviava-me do fundo do seu coração o seu amor, que só se detinha onde já não houvesse matéria em que se apoiasse, enviava-mo à superfície do seu olhar apaixonado, que tornava tão próximo de mim quanto possível e que procurava realçar na ponta dos lábios, num sorriso que parecia beijar-me, na moldura e sob o dossel mais discreto da ogiva iluminada pelo sol do meio-dia – por causa disso, aquela janela adquiriu na minha memória a doçura das coisas que, ao mesmo tempo que nós, ao nosso lado, participaram de uma certa hora que soava badalada, a mesma para nós e para elas; e, por muito recheados de admiráveis formas que sejam os seus mainéis, aquela ilustre janela conserva para mim o aspecto íntimo de um homem de génio com quem tivéssemos passado um mês numas mesmas férias e que durante esse mês tivesse ganho alguma amizade por nós; e se, desde então, quando descubro o molde daquela janela num museu, me vejo obrigado a reter as lágrimas, isso acontece muito simplesmente porque ela me diz apenas aquilo que mais me pode comover: “Lembro-me muito bem da sua mãe.”
»

Marcel Proust, “A Fugitiva, Em Busca do Tempo Perdido, Vol. 6”. Lisboa: Relógio D’Água, 2016, p. 187-188.

A estranha ordem das coisas

«
– E o que é a vida?
– É uma coisa venerável, confusa, efusiva. A grande arte dá-nos isso e a grande literatura dá isso extraordinariamente. Quando não se inclui essa componente de confusão, efusividade, aquilo que pode ser qualificável de bom ou de mau, perde-se uma grande parte do que é a vida. Por isso, e para acrescentar uma nota à sua pergunta anterior, os sentimentos como personagem são as representações, aquilo que está na nossa experiência mental quando estamos a viver uma vida real. E ao mesmo tempo uma forma de nos alertarem para aquilo que está a correr bem ou mal no sentido mais amplo do termo: a vida dentro de um organismo. Um organismo vivo, que tem bons momentos e maus momentos, que tem todas as variações e flutuações que vêm do seu metabolismo e que, porque tem mente e tem consciência – que é uma coisa que nós temos e as bactérias não – vai poder ter acesso a esse relato daquilo que está a correr bem ou mal.
»

António Damásio, entrevista por Isabel Lucas. In Público: https://www.publico.pt/2017/11/05/ciencia/entrevista/antonio-damasio-1791116

Hallelujah

«
I heard there was a secret chord
That David played and it pleased the Lord
But you don’t really care for music, do you?
Well it goes like this: the fourth, the fifth
The minor fall and the major lift
The baffled king composing Hallelujah
(…)
Your faith was strong but you needed proof
You saw her bathing on the roof
Her beauty and the moonlight overthrew you
She tied you to her kitchen chair
She broke your throne and she cut your hair
And from your lips she drew the Hallelujah
(…)
Baby I’ve been here before
I’ve seen this room and I’ve walked this floor (you know)
I used to live alone before I knew you
And I’ve seen your flag on the marble arch
And love is not a victory march
It’s a cold and it’s a broken Hallelujah
(…)
There was a time when you let me know
What’s really going on below
But now you never show that to me, do you?
But remember when I moved in you
And the holy dove was moving too
And every breath we drew was Hallelujah
(…)
Maybe there’s a God above
All I’ve ever learned from love
Was how to shoot somebody who outdrew you
And it’s not a cry that you hear at night
It’s not somebody who’s seen the light
It’s a cold and it’s a broken Hallelujah
»
Leonard Cohen, “Hallelujah”. In “Various positions”, 1984. The cover by Jeff Buckley is also highly recommended.

Is it too late to save the world?

«
One of the mysteries of literature is that personal substance, as perceived by both the writer and the reader, is situated outside the body of either of them, on some kind of page. How can I feel realer to myself in a thing I’m writing than I do inside my body? How can I feel closer to another person when I’m reading her words than I do when I’m sitting next to her? The answer, in part, is that both writing and reading demand full attentiveness. But it surely also has to do with the kind of ordering that is possible only on the page.
(…)
I really did want to change the climate. I still do. I share, with the very people my essay criticised, the recognition that global warming is the issue of our time, perhaps the biggest issue in all of human history. Every one of us is now in the position of the indigenous Americans when the Europeans arrived with guns and smallpox: our world is poised to change vastly, unpredictably, and mostly for the worse. I don’t have any hope that we can stop the change from coming. My only hope is that we can accept the reality in time to prepare for it humanely, and my only faith is that facing it honestly, however painful this may be, is better than denying it.
»

Jonathan Franzen, “Is it too late to save the world? Jonathan Franzen on one year of Trump’s America”. In The Guardian:  https://www.theguardian.com/books/2017/nov/04/jonathan-franzen-too-late-to-save-world-donald-trump-environment