No Outono

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Portanto, és tu, Anne.

Os pais dão vida à criança, a criança dá esperança aos pais. É esta a transação.
Parece um fardo?
Não é. A esperança não exige nada.
E eu sou sentimental. Mas como escrever sobre isto, que é tão pequeno e tão grande, tão simples e tão complicado, tão trivial e tão… sim, sagrado?
Sentimental é outra palavra para dizer pleno de sentimentos. Mas que são os sentimentos? Sentimental, dizemos nós de alguma coisa que exagera os sentimentos, que os esbanja. Está então a sobriedade acima de tudo?

O céu esta noite está estrelado. Estive mesmo agora lá fora a mijar na relva, o que só faço quando estão todos a dormir e eu estou só. Dias e dias de céu limpo temos nós tido este verão, de maio até agora, sol de dia, estrelas à noite. Nada há de mais bonito do que um verão bom que se escoa e deixa uma espécie de saciedade, algo foi preenchido, e agora tudo muda, agora já não há campos dourados ali, sob o alto céu azul – vistos da estrada, os campos parecem lagos entre o casario -, mas sim campos ceifados, pois nas últimas semanas os tratores e as ceifeiro-debulhadoras deslizaram para cá e para lá sobre eles e altas filas de grande bolas de palha comprimida jazem aqui e ali como muros altos ao vento, que, cada vez mais, sopra pela terra adentro vindo do mar báltico.
Algo foi preenchido, agora esvazia-se, o ar do calor, as árvores dos frutos e das folhas, os campos das espigas. Tudo isto enquanto cresces em silêncio na escuridão.
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Karl Ove Knausgård, “No Outono”, Lisboa: Relógio D’Água, 2016, p. 82-83.

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Tínhamos ido para o fiorde

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Mais tarde, quando saíram do campo de visão, o avô disse que ver golfinhos dava sorte. Ele dizia coisas assim, acreditava em profecias e superstições, mas apesar de gostar de o ouvir, não pensava por um momento sequer que na realidade pudessem ser verdade. Agora penso. Porque fazemos nós alguma ideia de como a felicidade e a infelicidade são distribuídas? Elas surgem no interior do humano, tal como bem pensa a maioria das pessoas no nosso tempo racional, e somos nós mesmos que criamos a nossa felicidade ou infelicidade, a questão é o que se entende por ‘nós mesmos’ num tempo assim – se não é apenas uma concentração de células que concretizaram um código genético e que é modificado por experiências, que são ativadas ou desativadas por pequenas tempestades electroquímicas, de maneira que algo determinado seja sentido, pensado, dito, feito? E que as consequências exteriores disto criam uma nova tempestade interior, e uma subsequente série de sentimentos, pensamentos, verbalizações, gestos? Uma redução destas é absurda e mecanicista, mas não mais absurda e mecanicista do que a redução dos golfinhos a um animal marinho com determinadas características e comportamentos, porque todos os que entraram em contacto com eles, no momento em que não só surgem das profundidades, mas também do tempo, imutáveis como são há milhões de anos, sabem que vê-los é ser atingido por algo, é como se eles te tocassem, e que com isso tu és escolhido.
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Karl Ove Knausgård, “No Outono”, Lisboa: Relógio D’Água, 2016, p. 36.

Carta a uma filha que vai nascer

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O que é que faz a vida ser digna de ser vivida?
Nenhuma criança faz esta pergunta. Para as crianças a vida é uma evidência. A vida fala por si própria: se é boa ou má, não tem nenhuma importância. É assim porque elas não veem o mundo, não avaliam o mundo, não reflectem sobre o mundo, mas estão tão profundamente no mundo, que não fazem a separação entre ele e elas próprias. É só quando isso acontece, quando surge uma distância entre aquilo que elas são e o que o mundo é, que a questão se põe: o que é que faz a vida ser digna de ser vivida?
É a sensação de pressionar o puxador para baixo e abrir a porta, sentir se abre para dentro ou para fora nas dobradiças, sempre leve e fácil, e entrar noutro quarto?
Sim, a porta abre como uma asa, e apenas isso já faz a vida ser digna de ser vivida.
Se uma pessoa já viveu muitos anos, a porta é uma evidência. A casa é uma evidência, o jardim é uma evidência, o céu e o mar são evidências, a própria lua, que se suspende sobre os telhados e os ilumina de noite, é uma evidência.
O mundo fala por si próprio, mas não o escutamos, e como já não estamos profundamente nele e o sentimos como uma parte de nós mesmos, é como se ele desaparecesse. Abrimos a porta, mas nada significa, não é nada, é apenas uma coisa que fazemos para passar de um quarto para outro.
Quero mostrar-te o nosso mundo, tal como ele é agora: a porta, o chão, a torneira e a pia,  a cadeira de jardim junto à parede, debaixo da janela da cozinha, o sol, a água, as árvores. Tu irás vê-lo da tua própria maneira, virás a ter as tuas próprias experiências, e a viver a tua própria vida, portanto é evidente que acima de tudo é por minha causa que o faço: mostrar-te o mundo, faz a minha vida ser digna de ser vivida.
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Karl Ove Knausgård, “No Outono”, Lisboa: Relógio D’Água, 2017, p. 18-19.